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Palestinos são protagonistas de documentário no Brasil

 Imprimir Arabesq | 29/04/2009 A | A
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Por Carolina Montenegro*

Na tela do cinema, um homem varre areia e pedra no meio do deserto. Outro cria dois gatos na precária barraca onde vive há anos. Uma senhora rega seu jardim e um jovem casal conta sua história de amor, nos braços um recém-nascido. Um jovem sorridente repete palavras em português sentado sobre um caixote.

Todos são refugiados palestinos a caminho do Brasil. Em 48 horas, 107 palestinos desembarcam em São Paulo depois de viveram cinco anos em um campo na Jordânia. É setembro de 2007. A maioria deles nasceu e morava no Iraque, mas com a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, tornaram-se um dos grupos perseguidos por milícias xiitas.

"É absurdo o número de refugiados hoje no mundo, a única coisa que circula livremente é o dinheiro. Queria propor uma reflexão sobre a questão, que é tão grave e tão pouco abordada no Brasil”, Stela Grisotti.

As cenas fazem parte do documentário “A Chave da Casa”, dirigido por Paschoal Samora e Stela Grisotti, que foi divulgado no Festival 14º “É Tudo Verdade” de março a abril em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. “Tivemos acesso ao campo de refugiados por apenas dois dias, depois de enfrentar a burocracia do governo da Jordânia e o forte esquema de segurança da ONU”, conta Grisotti.

O imprevisto acabou servindo de mote para a filmagem das últimas 48 horas dos refugiados no campo de Ruweished. Outra curiosidade, a tradutora da ONU que iria ajudar nas entrevistas teve que atender uma emergência. Conclusão: dezenas de hora de filmagem foram feitas às escuras, sem os cineastas saberem o que os palestinos diziam. A tradução das cenas foi feita no Brasil três meses mais tarde.

“Acabamos escolhendo os personagens também ao acaso, por causa disso. Demos muita sorte”, explica a diretora. Foi dela também que partiu a idéia do documentário. “Perguntei para mim mesma como a humanidade ainda permitia que essas pessoas vivessem nesta situação precária, no meio do deserto, por anos”, afirma.

“É absurdo o número de refugiados hoje no mundo, a única coisa que circula livremente é o dinheiro. Queria propor uma reflexão sobre a questão, que é tão grave e tão pouco abordada no Brasil”, explica Grisotti. O tema dos refugiados interessava Stela desde que filmou, em 1997, o documentário “Vale a pena sonhar” sobre Apolônio de Carvalho e a geração de 1968, premiado pela TV Cultura.

“Dessa vez, decidimos dividir o ‘A Chave da Casa’ em dois Atos. No primeiro está a saída da Jordânia e no segundo a adaptação no Brasil, nove meses depois”, diz Stela. No país, os refugiados foram reassentados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

O jovem casal comemora a chegada de um novo bebê, um menino que será brasileiro. O palestino que estudava português no deserto ensina árabe para crianças no Brasil. O futuro se delineia, mas as dificuldades de adaptação são grandes. “Dia 15 começo a me preocupar com o que vou comer dia 16 e no dia 20 estou quebrado já”, afirma o jovem de 26 anos que recebe ajuda financeira do Acnur (Agência da ONU para Refugiados) no valor de R$ 350 por mês.

A simpática senhora palestina de cabelos brancos e cara redonda mantém arrumada a nova casa à espera das visitas que na Palestina eram tão freqüentes. “Também não rezo mais desde que cheguei ao Brasil”, revela contando que não sabe qual a direção correta de Meca. “Já perguntei para outras pessoas, mas cada uma diz uma coisa diferente.”

Mas é o encontro de dois dos palestinos vindos ao Brasil, que dá o tom da conclusão do documentário. A esperança e a expectativa do Ato I ganham traços de melancolia e decepção. Um, destinado a Pelotas, o outro, a Mogi das Cruzes, travam uma conversa cheia de ironia e crítica sobre sua condição de perpétuos refugiados. 

O primeiro comenta que ao tirar seu CPF no Brasil, por engano, seu local de nascimento foi identificado como Palestina. “Nós lutamos há 60 anos para este lugar existir e eles conseguiram isso primeiro”, conta bem-humorado. Também conversam sobre a saudade dos amigos que ficaram em Bagdá. “Se eles nos vissem achariam que estamos vivendo com luxo aqui no Brasil, mas daria tudo por uma hora em Bagdá”, afirma o outro refugiado.

No trajeto da viagem entre São Paulo e Rio Grande do Sul, ele coloca no papel suas angústias em forma de um diário. E encerra perguntas sem respostas sobre a identidade de seu povo: “Será este o destino dos palestinos, se perder em várias partes do mundo? Um povo sem pátria, de uma terra roubada. Será que um dia voltarei à Palestina?”

* Carolina Montenegro é repórter freelancer e cobre jornalismo internacional há cinco anos, com passagens pela Folha de S. Paulo, Reuters e Ansa. Atualmente é repórter especial do site Refugees United (www.refunite.org), escreve um livro-reportagem sobre os refugiados palestinos no Brasil e contribui para o Portal Arabesq.

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COMENTÁRIOS
 
yiiddsch 5/5/2009 8:46:37 AM
your country and your poeple is good and have the beautiful music thank's for nice to meet your people and country and the musickq say angenl in the skyiiddsch satelitte artifficial onpen!

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